Toda empresa que me chama para falar de segurança em IA está em um de dois extremos: ou não tem regra nenhuma (e cada um improvisa) ou tem um PDF de 30 páginas vindo do jurídico (que ninguém leu, inclusive quem aprovou). Os dois falham pelo mesmo motivo: não respondem, na hora da dúvida, às perguntas que as pessoas realmente têm.

Uma boa política de uso seguro de IA cabe numa página. E só precisa responder a quatro perguntas.

1. O que pode

Comece pelo permitido: política que só proíbe empurra o uso para o escondido. Em geral, estão liberados:

  • rascunhos de textos, e-mails e apresentações com informações internas não sensíveis;
  • resumos e traduções de materiais já acessíveis ao time;
  • pesquisa e comparação de fontes públicas;
  • geração de ideias, estruturas e primeiras versões de análises.

2. O que não pode

Aqui a lista precisa ser curta e memorável: são os “nuncas”:

  • dados pessoais de clientes ou funcionários (principalmente dados sensíveis) em ferramentas sem contrato corporativo;
  • informações sob sigilo: contratos, resultados não divulgados, estratégia comercial;
  • credenciais, chaves de acesso e código com segredos;
  • qualquer conteúdo cujo vazamento viraria manchete ou processo.

3. O que exige revisão humana

A zona cinzenta é onde a política ganha a vida. A regra simples que funciona: tudo que sai com o nome da empresa ou muda a vida de alguém passa por revisão humana: propostas comerciais, comunicados, números em relatórios, análises de pessoas. A IA rascunha; uma pessoa responde pelo resultado.

4. Quais ferramentas são aprovadas

Liste as ferramentas oficiais, com conta corporativa e uso de dados para treinamento desativado, quando disponível, e o que fazer com o resto. Ferramenta não aprovada não é “proibida para sempre”: é “ainda não avaliada”, com um caminho claro para pedir avaliação. Isso evita o efeito proibição, que detalhei no artigo sobre shadow AI, o uso invisível de IA pelas equipes.

O modelo, seção por seção

Este é o esqueleto que uso para escrever a política. A regra de ouro do preenchimento: exemplos da sua empresa, na coluna da direita. Política copiada de outra organização proíbe o que não é o seu risco e libera o que é.

Recurso para usar hoje

Política de uso de IA em uma página

Versão 1.0 · revisado em agosto de 2026 · Dorly Curvello (Professor Dorly)

O esqueleto que uso para escrever a política que as pessoas realmente leem. Preencha a coluna da direita com exemplos da SUA empresa: política copiada de outra organização proíbe o que não é o seu risco e libera o que é.

Política de uso de IA em uma página: versão 1.0
SeçãoO que respondeComo preencherErro comum
PodeUsos liberados sem pedir autorizaçãoListe tarefas, não ferramentas: rascunho, resumo, tradução, pesquisaComeçar pela proibição, o que empurra o uso para o escondido
Não podeOs “nuncas”, curtos e memoráveisDado pessoal e sensível, sigilo, credenciais, código com segredoLista longa que ninguém lembra na hora da dúvida
Revisão humanaO que não sai sem alguém responder por eleTudo que leva o nome da empresa ou afeta a vida de alguémDeixar a zona cinzenta sem regra
FerramentasQuais contas são oficiaisNome, tipo de conta e se o uso para treinamento está desligadoTratar não aprovada como proibida para sempre, em vez de "ainda não avaliada"
DúvidaA quem recorrer, com prazoPessoa ou canal, e quanto tempo para responderNão nomear ninguém; a dúvida sempre aparece
VersãoQuando isto foi revisado e por quemVersão, data, responsável e data da próxima revisãoDocumento sem data, que envelhece sem ninguém notar

Exemplo de preenchimento da linha “Ferramentas”: “ChatGPT Business (conta corporativa, treinamento com nossos dados desligado) para texto e análise sem dado pessoal; Copilot no repositório X; qualquer outra ferramenta é ‘ainda não avaliada’. Peça avaliação no canal #ia-duvidas, resposta em até 5 dias úteis.”

  • Uma página, na língua das pessoas, publicada onde o trabalho acontece, não em anexo de e-mail.
  • Revisão trimestral: ferramentas e riscos mudam rápido demais para documento anual.
  • Pontos de LGPD e contrato com fornecedor merecem revisão do jurídico ou do DPO; este modelo é operacional, não parecer.

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Seção,O que responde,Como preencher,Erro comum
Pode,Usos liberados sem pedir autorização,"Liste tarefas, não ferramentas: rascunho, resumo, tradução, pesquisa","Começar pela proibição, o que empurra o uso para o escondido"
Não pode,"Os “nuncas”, curtos e memoráveis","Dado pessoal e sensível, sigilo, credenciais, código com segredo",Lista longa que ninguém lembra na hora da dúvida
Revisão humana,O que não sai sem alguém responder por ele,Tudo que leva o nome da empresa ou afeta a vida de alguém,Deixar a zona cinzenta sem regra
Ferramentas,Quais contas são oficiais,"Nome, tipo de conta e se o uso para treinamento está desligado","Tratar não aprovada como proibida para sempre, em vez de ""ainda não avaliada"""
Dúvida,"A quem recorrer, com prazo","Pessoa ou canal, e quanto tempo para responder","Não nomear ninguém; a dúvida sempre aparece"
Versão,Quando isto foi revisado e por quem,"Versão, data, responsável e data da próxima revisão","Documento sem data, que envelhece sem ninguém notar"

Uso livre dentro da sua empresa, com crédito quando publicar. Não substitui orientação jurídica.

Como colocar em prática (sem travar o time)

  • Uma página, na língua das pessoas, com exemplos reais da empresa, não juridiquês;
  • Publicada onde o trabalho acontece e repetida no onboarding;
  • Revisão trimestral: ferramentas e riscos mudam rápido demais para documento anual;
  • Nasce junto do programa de adoção, não num comitê separado, segurança como pré-condição, como escrevi no guia de como começar a adoção de IA na empresa.

Os pontos de dados pessoais, contrato com fornecedor e decisão automatizada têm capítulo próprio em LGPD e IA generativa: o que decidir antes de liberar o uso. Vale ler antes de fechar a seção “não pode”.

Os erros mais comuns

  • copiar a política de outra empresa (os “nuncas” dela não são os seus);
  • proibir tudo e declarar vitória, o uso continua, só que invisível;
  • escrever uma vez e nunca revisar;
  • não dizer a quem recorrer na dúvida, e a dúvida sempre aparece.

Perguntas frequentes

Política de uso de IA precisa de advogado?

Para revisar pontos de LGPD e contratos com fornecedores, vale a consulta. Mas o documento do dia a dia, o que pode e o que não pode, deve nascer da operação e ser escrito na língua do time, não do jurídico.

Qual a diferença entre política de IA e política de segurança da informação?

A de segurança cobre dados e sistemas em geral; a de IA responde a perguntas novas: posso colar este texto num chatbot? Posso usar a resposta numa proposta? Quais ferramentas são oficiais? Uma complementa a outra, e a de IA deve ser curta e prática.

Como garantir o cumprimento sem vigiar funcionário?

Com desenho, não com vigilância: ferramentas oficiais com conta corporativa, treinamento com casos reais, revisão humana nos pontos sensíveis e um canal para dúvidas. Política que depende de fiscalização individual já nasceu perdida.

Próximo passo

Se você quer uma política de uso de IA desenhada para a realidade da sua empresa, junto com o programa de adoção, fale comigo em ativos de enablement ou pelos canais de contato.